OFICINA DIREÇÃO

Foto: Zé Maria

EU CURTO FICÇÃO

Foi com alegria que aceitei o convite pra realizar essa oficina de cinema no Capão (distrito de Palmeiras). Imagino que o encontro de gerações será fecundo em muitos sentidos e por diferentes razões: de um lado uma moçada ávida, cheia de ideias e vontade de experimentar, de se expressar através do audiovisual; do outro um sex@genário portador de perigosa síndrome: adolescência tardia, persistente, incurável. Depois de tantos anos, o que mais quero é voltar a filmar com a mesma liberdade com que comecei, por absoluta necessidade de me expressar – por amor, esperança, tesão, desespero, indignação em face de uma realidade sombria patrocinada pela ditadura militar… Eu havia estudado engenharia civil e tinha um emprego na Odebrecht (vejam só!), mas desde os tempos da escola me sentia como um estranho no ninho; eram os anos de chumbo e eu estava entrando em parafuso – ansiedade, angústia, depressão… Pedi demissão, acabei ficando com um emprego que me pagava mal, mas exigia pouco. Devo dizer que naquele momento de minha vida a cannabis foi a descoberta mais revolucionária, só comparável ao que havia sentido no primeiro orgasmo… Por alguma razão com a qual até hoje não atino de forma cabal, escolhi a ficção. Estava aberto o caminho pra a consecução de planos mirabolantes de fazer cinema, teatro, qualquer coisa alternativa… O passo seguinte foi comprar uma câmara super 8, e filmar virou sine qua non em minha vida; a sensação me foi dada pelo ofício de fazer da fantasia um canal de transmutação do chumbo em ouro, e tudo o que fiz desde aquele dia foi buscar nesse ofício extraoficial uma maneira de catapultar a mim mesmo pra fora de qualquer inferno; como se fazer arte tivesse o condão de nos tornar invulneráveis aos golpes da vida, fossem eles causados por doença, injúria ou indignação, transmutando injustiça social y todo lo más em ficção; feito um anzol que pescasse uma estrela, uma corda que atirada pra cima engancha num ponto qualquer do espaço e permite que a gente trepe e escale e suba, o mesmo susto do trapezista ao cair em si. De lá pra cá eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. A fantasia é teletransporte, é pharmacon: pegue um texto qualquer que lhe incendiou de desejo o coração e comece a inventar um jeito de colher essa flor – ou pode ser uma pluma, ou uma concha só sua, e persiga a trilha aventureira da maravilha instaurada nessa hora em seu sentir – porque isso é estado de graça, que nem nos conta o poeta que fugiu do céu com um menino Jesus só seu pra brincar de guardador de rebanhos.

 

Edgard Navarro

2017

POST SCRIPTUM:

Tem mais uma coisa que é bom todos ficarem sabendo: ORLANDO SENNA – por quem tenho enorme apreço, foi justamente quem me iniciou nos macetes da dramaturgia, em oficina de roteiro por ele ministrada nos idos de 1978. Talvez Orlando nem se lembre idsso, mas eu me lembro.

 

Público-alvo: 20 vagas – estudantes do ensino médio, estudantes de cinema e profissionais da cultura

Carga Horária: 28h

Onde: Salão da Associação de Moradores Vale do Capão-BA

Quando: 29 de maio a 04 de junho, das 14h às 18h.

Inscrições aqui!  até o dia 30/04/2017 – INSCRIÇÕES ENCERRADAS

O resultado da seleção será disponibilizado no dia 05/05/2017.

MINISTRANTE: EDGARD NAVARRO

Edgard começou a fazer cinema na bitola Super8, realizando diversos curtas marcados pelo humor cáustico, iconoclasta, irreverente, premiados em festivais da categoria; Em seguida realizou PORTA DE FOGO, sobre a morte do guerrilheiro Carlos Lamarca no sertão da Bahia – premiado na Bahia e em Brasília/85; LIN E KATAZAN, sobre a relação entre um operário da construção civil e o capataz da obra – premiado em Brasília/86; e SUPEROUTRO, sobre um louco de rua que através de sua imaginação alucinada tenta libertar-se da miséria que o assedia – premiado em Gramado/89. Após o colapso sofrido pelo cinema brasileiro em 1990, o cineasta realizou TALENTO DEMAIS (1995), documentário em vídeo sobre o cinema baiano; e O PAPEL DAS FLORES, curta que propõe uma reflexão sobre o eterno e o efêmero, premiado no Cine Ceará/2000. Em seguida realizou EU ME LEMBRO, longa memorialístico premiado com 7 Candangos em Brasília/2005; O HOMEM QUE NÃO DORMIA (2011), longa rodado na chapada diamantina que versa sobre o resgate da suposta integridade primordial que nos pertence a todos; e o longa ABAIXO A GRAVIDADE, frágil libelo contra a inelutável força que atrai tudo pra baixo, propondo para tanto mero voo patético, apaixonado.